quinta-feira, 23 de setembro de 2010

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Eram quatro ao todo: Betão, Biro-Biro, Rubens e Zé Luiz. Quatro pescadores natos, criados em São Paulo, mas com o vício dos grandes rios do Mato-Grosso.

A pescaria desse ano, como de todos os outros desde que se tem lembrança, seria a bordo de um barco-hotel, longe das barrancas e seus provocativos puteiros.

Horas de viagem que passavam rapidamente, revezando-se entre eles ao volante do velho ônibus que compraram em sociedade para esse fim.

Três dos quatro amigos, todos beirando aos 40 anos, eram pais de família, à excessão de Biro-Biro: 'namorador biscateiro', como ele mesmo se definia, não conseguia ficar com a  mesma mulher mais que uma ou duas semanas. Por outro lado, também não coseguiria ficar mais que duas noites sem nenhuma.

Por essas e outras, toda vez que embarcavam no barco que os levaria a pesca, a tralha de Biro-Biro sempre era a maior. É quem além de linhadas e chumbadas, anzóis e molinetes, Biro-Biro carregava Cleide, boneca inflável que lhe fazia companhia nas solitárias noites sem femininos corpos a seu lado. Claro que este era o motivo de gozação predileto entre eles, mas nunca conseguiram com que Biro-Biro deixasse Cleide em casa. "A única mulé que nunca me encheu o saco", repetia sempre após cada nova piada. Como toda piada acaba por perder a graça, pouco se falava sobre a namorada dobrável na mala.

Segundo consta dos autos de investigação da capitania dos portos, o barco "O Filezão" foi a pique por volta das três da madrugada, horário em que cansados ou bêbados pescadores estão roncando em seus beliches e redes.

Primeiro, um forte solavanco. Depois o porão fazendo água por um enorme rasgo no casco. Alguma tora perdida  na escuridão do rio.

Gritaria e confusão. Palavrões e pedidos de socorro, enquanto verificavam que os botes salva-vidas não eram suficientes aos 45 ocupantes do "O Filezão". Coletes salva-vidas, em condições piores que fundo de calça de moleque.

Betão, Rubens e Zé Luiz acordaram com o barulho e subiram para o convés já com água pelas canelas, em meio a peixes mortos e perdidos de seus algozes. Só quando estavam já procurando algo que os fizessem salvos é que notaram a falta de Biro-Biro. Gritaram, procuraram pelo convés...e nada.

"Já se foi para a água", pensaram. Atiraram-se ao barrento rio, procurando com suas mãos alcançar a margem mais próxima. Nadaram e nadaram...Boiaram... Mas o cansaço de um dia inteiro nem o medo de morrer supera.

Foi quando, vindo sabe-se lá de onde, uma cabeça morena de longos cabelos emerge. "É Iara, mãe d'água que vem nos buscar!".

Mas que nada. Sobre Iara estava sentado, despreocupadamente, Biro-Biro. Iara ninguém mais era que Cleide, sua borrachuda namorada. Com uma das mãos, Biro-Biro remava e na outra, arrastava algo do madeirame do barco já morador das profundezas do rio.

Os três amigos, agarrando-se aos restos do barco, conseguiram  por fim boiar até a margem, salvando-se.

Dizem hoje os que contam essa história que as famílias continuam a se reunir em churrascos, a cada final-de-semana em casa de um ou outro, mas que independente do lugar, há sempre uma bela morena, de vestido novo, sentada em lugar de honra, longe da churrasqueira, para não furar seu corpo de plástico.

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Originalmente publicado em "Uns & Outros" -- 2009 -- ISBN: 978-85-60864-23-2

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