segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

postheadericon Cia-Calma Beth! Ministrando Efeito Placebo no Ego Alheio - Texto de Letícia Coelho e David Nóbrega

domingo, 23 de janeiro de 2011

postheadericon Viagem

                 O ônibus levantou pó quando partiu, deixando atrás de si a fumaça preta do escapamento cobrindo o rastro da saudade que certamente viria.
                Tantas coisas ainda ficaram para se dizer um ao outro...
                Tantos plano para se por ainda em prática...
                Quando chegou, poucos dias antes, o coração quase que lhe arrebentava o peito. Faria quanto tempo que não se viam? Dois meses, talvez três? Isso não importava, pois um dia distante já era qualquer coisa de enlouquecedor vazio.
                A viagem não havia sido das melhores; partindo de sua cidade, ao norte, em ônibus onde nem se podia reclinar o banco ou mesmo banheiro tinha, demorou quase cinco dias. Lá por perto do meio do caminho, o velho e depredado motor não agüentou, fazendo com que todos ficassem parados um dia todo no acostamento, aguardando que o motorista desse "um jeitinho".
                Claro que isso não o impediria de chegar, mas lhe roubaria momentos importantes de convivência tão esperada.
                Os pensamentos voam quando se está sozinho. As palavras e gestos de reencontro ensaiados, letra a letra, movimento a movimento.
                Sabia que isso não adiantaria nada; ao vê-la, com certeza seu coração entraria em saltitante alegria, lhe embotaria os pensamentos e a língua travaria. Já havia acontecido antes e com certeza não seria diferente desta vez.
                Dois meses... talvez três. Sem o toque em seus cabelos rebeldes e que insistem sempre em lhe cair aos olhos. Todo esse tempo sonhando em ser um com o outro.
                A chegada foi como deveria ser: silêncio mútuo, olhares encabulados e mãos que se buscaram sem a necessidade de ato combinado. Caminharam mudos e felizes até a chegada ao hotel, pequeno para ser chamado assim. Pouco importava, pois seria sua residência por algum tempo.
                O primeiro beijo já no quarto, durou para todo o sempre naquele instante. Línguas e lábios que não precisavam nem de sangue para viver e sentir. Toques de mãos, pés, desespero no botão difícil de abrir. Um gozo sem tempo e espaço.
                As saudades, antes tão presentes, transformam-se em plenitude abstrata e prazer concreto.
                O tempo não pára e já era hora de partir. Os dias correram contra eles, seguindo o prazer tendencioso de encurtar a vida que o relógio e o calendário têm.
                De pé, na plataforma da rodoviária, o beijo antes tão prazeroso tomou o gosto do veneno da despedida. Algumas lágrimas, que secaram ao sol antes mesmo de rolar pela face morena, perfeita.
                Mas sim, assim tem que provisoriamente ser. Os dois sabem que partilharam pouco da vida, mas que serão seus os dias dentro em pouco. 
                Não há tristeza, só a saudade coberta pela fuligem preta
____________________________________________________
Originalmente publicado em "Uns & Outros" -- 2009 -- ISBN: 978-85-60864-23-2
sábado, 22 de janeiro de 2011

postheadericon Férias

                Casados há 13 anos, resolveram que era chegada a hora das tais famosas férias conjugais. Haviam visto na novela que os ricos faziam isso, para reacender o relacionamento, sentir o gosto da saudade, respirar um ar que não tivesse sido expelido pelos pulmões do(a) parceiro(a).
                Ele agendou na empresa, com dois meses de antecedência. Ela, "do lar", não precisava agendar nada. Bastava reunir umas poucas roupas, dobrá-las de uma maneira que não amassassem muito, colocar sapatos em uma sacolinha de supermercado, escova de dentes na bolsa.
                Ele foi às compras. Afinal era do tempo da sunga e hoje em dia só se usa bermudas. Precisava também de uma nova camisa, que combinasse com a nova bermuda. E, já que estava ali mesmo, por que não leva a sandália, senhor?
                Na data combinada, ele deu-lhe um longo beijo na testa, virou as costas e entrou no ônibus, com destino à praia onde passara toda a juventude e com certeza haveria algum conhecido que o acompanhasse às farras que já tinha em mente, mesmo tendo jurado por tudo que era sagrado que se comportaria.
                Ela ficou com o carro. Iria para uma pousada em meio ao verde e planejava descansar, andar por trilhas que não fossem lá muito longas e ler. Claro, banho de sol e piscina.
                Foi aí que ela se deu conta de que tinham três filhas. Os planos de viagem foram feitos de maneira conjugal, mas nenhum deles sequer se lembrou de que as meninas teriam que ficar com alguém. A mãe que morava no quartinho dos fundos, já que adoentada não poderia ficar sozinha nem cuidar das crianças, também estava ali. Quatro mulheres, dos 8 aos 80 anos ali, encarando-a.
                Ligou para a pousada, pediu um quarto maior, fez as malas de todas, comprou mantimentos no mercado, acomodou-as no pequeno carro, partiram para lá longe, para as férias.
                Ele chegou à praia e após deixar as malas na casa que fora desde sempre de sua família e onde passara a lua de mel, saiu sem rumo, bermuda florida com a etiqueta esquecida pendurada, camisa nova desabotoada. Passou pelo bar do Betão, que não existia mais. Nem o bar nem o Betão, que morrera em um trágico acidente anos antes. No posto dos salva-vidas, encontrou o Efraim, de sunga, tatuado, brinco na orelha esquerda, aliança no dedo. Efraim apresentou-o a um "sobrinho" igualmente tatuado, de sunga, brinco na orelha, aliança no dedo. Por meio deles ficou sabendo que aquela parte da praia "deles" era a parte mais decadente do litoral. Muitos dos que ali moraram haviam se mudado para outros lugares com maior estrutura, outros haviam abandonado a vida a beira-mar e hoje viviam no calor sufocante das grandes cidades. Ele, Efraim, passava ali somente alguns dias a caminho de outras praias mais chiques e com gente bonita. Despediram-se e ele voltou para casa, decepcionado.
                Subir a serra para atingir o cume da montanha onde se encontra a pousada escolhida foi um martírio. O pobre carrinho, cheio de gente não necessariamente modelos de passarela, roncou, enroscou marchas, quase ferveu mas, depois de 2 horas de viagem, chegaram. O quarto era espaçoso, com camas bem arrumadas, televisor, cozinha e banheiro com banheira. A  vista simplesmente magnífica. As meninas não tiveram dúvida: colocaram os minúsculos biquínis e caíram na piscina. Fora elas, somente um outro casal de idosos estavam ali, assim tinham espaço de sobra para correr, cansar e se divertir.
                 A hora de comer chega em qualquer lugar do mundo e lá se vai ela para a cozinha, assim como fazia todos os dias em casa. Preparar a comida, servir, recolher os restos, lavar a louça e depois, claro, assistir à novela. Enfim, cansada, dormir.
                Ele bem que tentou ligar para o celular dela, para saber se estavam bem. Não haviam combinado de não se falarem? Mas a saudade aumentava na mesma proporção que a tristeza, causada pela decepção com um lugar que na realidade só existia em suas memórias juvenis. Não existia mais nada ali que fosse como era antes. Mesmo a casa, antes sempre arejada pelo uso contínuo, lembrava uma tumba, bolorenta, o angustiante cheiro de maresia estagnada. Foi quando resolveu tomar uma chuveirada que percebeu que ali realmente não haveria como ficar. Como ninguém aparecia mais ali havia anos, a água fora cortada por falta de pagamento. Também não havia energia, a porta dos fundos não trancava direito e o vento, passando pelas frestas do telhado mal-conservado, fazia barulhos horríveis durante a noite.
                Optou por voltar a sua casa no dia seguinte. Um dia longe dela e já sentia sua falta. Mesmo os planos de uma escapulida por coxas outras que não as dela caíram no esquecimento...
                No dia seguinte, enquanto ele se encaminhava para a rodoviária para tomar o ônibus que o levasse de volta a sua vida real, ela servia o café da manhã, lavava a louça, colocava o feijão de molho. Os remédios da mãe, a birra da menor que queria andar a cavalo, a do meio esperneando para conhecer a cachoeira, a maior absorta no celular sem sinal, praguejando baixinho. À hora do almoço, servir, juntar os restos, lavar a louça. Tudo exatamente como em casa, porém com duas diferenças: ele não estava ali e estava pagando por hospedar-se em um lugar afastado de tudo e de todos, trabalhando como se estivesse em casa. Perto das seis da tarde mandou todas arrumarem suas coisas, pois voltariam para casa.
                O reencontro dos dois, apenas dois dias distantes um do outro, foi muito parecido com aqueles tempos em que eram somente os dois. Ele viu que chegavam e foi abrir o portão, como há tempos não fazia. Ela desceu do carro e encostou-se contra a porta fechada, enquanto as meninas ajudavam a avó a entrar em casa. Ele chegou devagar, olhou em seus olhos com paixão. Ela enlaçou seu pescoço, inclinado a cabeça e buscando os lábios de seu amor  com um beijo adolescente, desajeitado, saudoso...
                Nunca mais tiraram férias do amor um do outro.
               
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

postheadericon calamidade

Vieram do horizonte
Do nada surgiram
Formas voluptuosas, negras
Corcéis alados em disparada
Desenfreados, cegos, mortais

Dos olhos raios partiam
Rachando a crua terra ressequida

Cada pata ferrada
Que das nuvens escapa
Um novo trovão. O ar que assobia
Vento. Redemoinhos de terror

Deslocam-se rapidamente
Nada os detem.
Um telhado que voa.
Uma árvore que ganha asas
Vidas em perigo, sem abrigo

As águas sobem
As casa mergulham
Gente que vira peixe
Mergulhando na lama fria
Dizendo adeus a suas vidas
Vazias

Dali, do alto de seu ninho a vê
Entre ondas, espumas, restos de outro ser
Batalha inglória, a natureza se rebela

Dali,
Joga-se amarrado pela cintura
Preso pela corda do desespero
O pior momento, dúzias de sonhos delirantes
Girando em torno de si e ela
Cada segundo mais e mais distante

Abraça águas imundas e as engole
Tira forças do amor, força dominante
O último mergulho quase foi seu último
Mesmo assim, nada ofegante

Seus dedos agarram seus longos cabelos
(Sedosos eram hoje de manhã, negros
Dispostos sobre seu peito, arfante, pleno)
O barro a cobre e com esforço a socorre

Alcançam a margem e de costas contra a terra
-- Movediças margens arrastadas --
Olham para o céu onde o espetáculo predomina.
Cansados, embarcam na canoa dos sonhos

...

O dia veio e os cavalos partiram
Ela acorda, exausta, sozinha
Ele a deixou durante a tempestade
Carregado desfalecido rio abaixo
Foi viver com a Mãe D´Água
Transformou-se em oferenda
Pagou por sua bem-amada,
Com a própria vida.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

postheadericon alfabetário

Assassinos Batalham Corajosamente,

(Demônios Em Falanges)

Granjeam Honra Inóqua

Julgam-nos Ladrões, Mercadores.

Ninguém Opinia, Porém

Quando Restam Somente

Túmulos Úmidos, Vazios

(Xamã Zangador)

Zombeteiros Xácaras, Vingativos

Urram, Torcem Saberes

Repetindo Questionamentos

Pobre Origem Natural

Malditos Lamentos Jaçados

Impedem Homens Garbosos

Festejar Experiências Divinas

Carentes Banidos, Amargurados.

sobre

Minha foto
@David_Nobrega
Mataram a bio... Jamais morreu
Visualizar meu perfil completo

tags

seguidores