domingo, 23 de janeiro de 2011

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                 O ônibus levantou pó quando partiu, deixando atrás de si a fumaça preta do escapamento cobrindo o rastro da saudade que certamente viria.
                Tantas coisas ainda ficaram para se dizer um ao outro...
                Tantos plano para se por ainda em prática...
                Quando chegou, poucos dias antes, o coração quase que lhe arrebentava o peito. Faria quanto tempo que não se viam? Dois meses, talvez três? Isso não importava, pois um dia distante já era qualquer coisa de enlouquecedor vazio.
                A viagem não havia sido das melhores; partindo de sua cidade, ao norte, em ônibus onde nem se podia reclinar o banco ou mesmo banheiro tinha, demorou quase cinco dias. Lá por perto do meio do caminho, o velho e depredado motor não agüentou, fazendo com que todos ficassem parados um dia todo no acostamento, aguardando que o motorista desse "um jeitinho".
                Claro que isso não o impediria de chegar, mas lhe roubaria momentos importantes de convivência tão esperada.
                Os pensamentos voam quando se está sozinho. As palavras e gestos de reencontro ensaiados, letra a letra, movimento a movimento.
                Sabia que isso não adiantaria nada; ao vê-la, com certeza seu coração entraria em saltitante alegria, lhe embotaria os pensamentos e a língua travaria. Já havia acontecido antes e com certeza não seria diferente desta vez.
                Dois meses... talvez três. Sem o toque em seus cabelos rebeldes e que insistem sempre em lhe cair aos olhos. Todo esse tempo sonhando em ser um com o outro.
                A chegada foi como deveria ser: silêncio mútuo, olhares encabulados e mãos que se buscaram sem a necessidade de ato combinado. Caminharam mudos e felizes até a chegada ao hotel, pequeno para ser chamado assim. Pouco importava, pois seria sua residência por algum tempo.
                O primeiro beijo já no quarto, durou para todo o sempre naquele instante. Línguas e lábios que não precisavam nem de sangue para viver e sentir. Toques de mãos, pés, desespero no botão difícil de abrir. Um gozo sem tempo e espaço.
                As saudades, antes tão presentes, transformam-se em plenitude abstrata e prazer concreto.
                O tempo não pára e já era hora de partir. Os dias correram contra eles, seguindo o prazer tendencioso de encurtar a vida que o relógio e o calendário têm.
                De pé, na plataforma da rodoviária, o beijo antes tão prazeroso tomou o gosto do veneno da despedida. Algumas lágrimas, que secaram ao sol antes mesmo de rolar pela face morena, perfeita.
                Mas sim, assim tem que provisoriamente ser. Os dois sabem que partilharam pouco da vida, mas que serão seus os dias dentro em pouco. 
                Não há tristeza, só a saudade coberta pela fuligem preta
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Originalmente publicado em "Uns & Outros" -- 2009 -- ISBN: 978-85-60864-23-2

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